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Ondas Concêntricas

Ondas Concêntricas

Não sei quem é o autor desta imagem, muito menos o que ele estava pensando quando a fez. Talvez, em sua essência, não seja nada disso, porém, ao vê-la, algo me veio à mente imediatamente. O que escrevo a seguir deve ter surgido em minha mente em menos de um segundo de observação. Caso, algum dia, o autor dessa imagem encontre esse texto, por favor, me informe se também pensou a mesma coisa quando a compôs.

Eu vejo um homem, sentado em uma rocha. O ambiente é avermelhado, quente e hostil como o interior de um vulcão. Na base da rocha, a qual o homem está sentado existe um lamaçal, porém não é a lama preta que estamos acostumados a ver composta por água e barro, essa é, como todo o resto do ambiente, avermelhada composta pelo solo parcialmente derretido pelo calor. No céu observa-se uma camada de nuvens multicoloridas, formadas pelos gases provenientes desse ambiente vulcânico. A abóboda celeste não é azul, mas uma mistura de vermelho com amarelo e várias rajadas de ambas as cores. Ainda é possível ver uma espécie de aurora boreal flutuando no firmamento, imagem essa que causa um pouco de espanto, pois este ambiente parece estar situado em área tropical.

Olhando novamente para o homem, repentinamente sou levado a me aproximar dele e, antes que percebesse, estou vendo através de seus olhos. Ele está ali, parado, contemplando com profunda admiração aquela poça de lama magmática, contemplando as nuvens de gases nobres e contemplando a luz solar que consegue transpassá-las.

É impressionante ver a partir de seus olhos, pois possuem acuidade fora dos parâmetros humanos. Ele consegue ver as coisas a nível molecular e percebe o universo de forma atemporal. Olhando para a lama ele vê uma intrigante formação de carbono e hidrogênio. Aquelas duas moléculas têm para ele um valor tão grande que ele só consegue parar de apreciá-las para olhar as nuvens. Em meio a todos aqueles gases nobres e metais alcalino-terrosos que as compõem, pela primeira vez, ele consegue ver uma grande concentração de hidrogênio. Ele respira fundo, expira e inspira novamente. Suas narinas hipersensíveis notam que o ar está respirável. Viu aquele homem que tudo aquilo era bom.

Agora, vivendo em seu corpo, percebo que este homem pode se deslocar no tempo e no espaço em qualquer sentido, mas ele está ali, parado, num local que, ao meu ver parece o período pré-cambriano, sentado, admirando lama, gases e a luz do sol. Opa! O que é isso? Trovões e raios, está começando a chover e eu, aqui, preso no corpo deste homem, sentado na rocha, completamente encharcado pela chuva. Porque ele não se levanta e procura abrigo? Porque não se desloca para outro local mais agradável? A composição dessa chuva nem é a água que estamos acostumados e sim uma coisa grossa que começa a aumentar a poça de lama. Porque ainda estamos aqui, eu e o homem? Mas o homem está ali, achando bom tudo aquilo.

Agora a atenção dele é toda voltada para a lama. Sim, estamos no local onde eu pensava estar! Estou vendo a mistura carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, alimentada pelos raios solares formando aquele que será o primeiro organismo vivo de nosso então inóspito planeta! Consigo ver uma seqüência ribonucléica! E o homem está maravilhado… Vendo que aquilo era bom.

Então surge alguém se aproximando, o qual não consigo ver, e ele pergunta: “meu senhor, porque está tão maravilhado? Não vê que isso não passa de um mero protozoário? Porque perde o seu tempo contemplando um organismo tão limitado?”. O homem não responde. A poça de lama agora está cheia de água barrenta. O homem estica sua mão para a poça, ainda chove muito, é difícil distinguir o espelho d’água devido a força da chuva. Ele toca a superfície com as pontas dos dedos e parte da palma da mão. De seus olhos vejo apenas isso. A mão tocando a água e a sombra do punho refletindo na irregular superfície. Para ele, aquilo era bom.

O homem, ainda em silêncio, olha para aquele que o interrogara e imediatamente todas as atenções se focam para mão na água. No sexto dia, não há mais chuva e sim o sol brilhante, a superfície da água outrora barrenta, agora é cristalina. Aquilo que era uma poça de lama agora é um belíssimo lago com a água em repouso absoluto, esse repouso só é quebrado pela presença da mão gerando ondas concêntricas. A imagem que agora vejo, da mão tocando a água, é na verdade uma grande celebração à vida, uma celebração àquilo que éramos, àquilo que somos e uma esperança de onde poderemos chegar. Viu o homem que tudo aquilo era bom.

A imagem que agora vejo mostra a dádiva que somos e me leva a pensar no comprometimento que temos com as gerações futuras. Se, no futuro, aquele homem vai olhar para quem somos e vai pensar “isso é bom”. Depende somente de nós.

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