Recentemente, me deparei com uma realidade a qual nunca havia me dado conta: os modelos de escrita de redação para diferentes instituições avaliadoras. Em meus tempos de estudante, e até mesmo atualmente, quando fiz meu mais recente curso curso universitário, minha única preocupação ao escrever uma redação era o tema proposto, e daí para frente seguia escrevendo com meu estilo literário que, quem me segue aqui, já conhece.
Mas a vida do candidato não é fácil e, para fazer uma redação que atenda aos critérios da banca avaliadora, deve se atentar aos modelos de redação. E, nesse sentido, meu brilhante sobrinho Yago Lins, trouxe-me dois textos em modelos diferentes para ilustrar essa diferença.
No primeiro texto, “Ato de Lucidez”, ele convida o leitor a avaliar o caminho para se atingir a felicidade em meio a uma sociedade cada vez mais caótica, utilizando para isso o molde da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
No segundo texto, a obra “1984”, de George Orwell é confrontada com o contexto moderno das redes sociais, o “Big Brother” do nosso tempo, trazendo à baila discussões como a necessidade de uma melhor preparação intelectual e interpretativa para a geração que ora caminha à ascenção. Tal texto utiliza o molde do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio.
E como o primeiro texto faz referência a Hamlet em um contexto sombrio, deixo esta trilha sonora para embalar a leitura do texto:
Ato de Lucidez
Em diversos momentos de nossas vidas, somos confrontados com questões que nos fazem questionar se a racionalidade seria o modo mais eficaz de resolução. Nesse sentido, frente a tantos problemas sociais e existenciais em nossa sociedade, torna-se justo pensar que a loucura seria uma saída, uma vez que rompe padrões e permite a fuga de pressões sociais.
Diante disso, o rompimento de preceitos pré-estabelecidos permite às pessoas uma liberdade única e real, sendo uma maneira de alcançarmos a felicidade plena. A exemplo disso, na música “Só os loucos sabem”, de Charlie Brown Jr. – uma das mais importantes bandas brasileiras –, afirma o que foi referenciado, destacando que somente uma pessoa louca poderia alcançar o amor e plenitude; adiciono ainda que isso ocorre por esses indivíduos estarem livres de pensamentos que normalmente nos prendem, como o medo de julgamento alheio. Dessa maneira, entendo que uma pessoa autônoma em relação às próprias ideias, sem temer ser considerada insana por querer se isolar em algum lugar bucólico, por exemplo, naturalmente encontrará sua alegria.
Nessa perspectiva, compreendo também que o desequilíbrio mental muitas vezes é um mecanismo de resposta à pressão imposta pela sociedade e seus dilemas constantes. Assim, nota-se que tal processo é exposto na peça “Hamlet”, de William Shakespeare, através da personagem Ofélia, que teve seu pai assassinado e esse foi o estopim de uma vida marcada pela opressão social, levando-a ao suicídio. Sendo assim, não devemos compreender essa tragicidade – o autoextermínio – como resultado do enlouquecimento, mas sim da supressão deste, que, como já discutido, a fez continuar presa naquele conjunto de normas e regras que viabilizavam a violência por ela sofrida, algo que acontece frequentemente na sociedade moderna, como postula um dos mais importantes filósofos contemporâneos, Michel Foucault, que liga esse acontecimento ao controle exercido pelos dominantes. Logo, esse mecanismo pode sim permitir fugir da realidade opressora e dominante vivida pela maior parte dos brasileiros ao os desvincular da verdade circundante e os conciliar com seu “eu interior”, livre de coação.
Portanto, é válida a noção de que a loucura pode ser usada como saída de tais adversidades. Porém, é mais do que a fragmentação dos padrões ou fugir da violência, uma vez que vivemos em um mundo tão distorcido. Entendo, sobretudo, que o questionamento a respeito de uma realidade tão corrompida e de seus valores é mais que necessário em tempos atuais no nosso povo, vejo como um ato de lucidez.
1984 e as Redes Sociais no Brasil
A obra literária “1984”, de George Orwell, cria um futuro distópico em que o Estado permeia todos os aspectos sociais e cotidianos. De maneira análoga, nos dias hodiernos, o efeito das redes sociais no Brasil mostra-se semelhante, uma vez que as Big Tech’s, aglutinadas com poderes estatais, dispõem dos dados individuais dos usuários, utilizando-os de acordo com sua conveniência. Deste modo, é válido frisar os principais impactos desse problema: a superexposição e a manipulação que ocorre nesse meio. Assim, o debate acerca disso mostra-se fundamental.
Diante desse cenário, o agressivo algoritmo utilizado no meio online – buscando sempre a manutenção do vício – é um dos fatores geradores da exposição exagerada na mídia, pois cria uma vitrine virtual em que a maior parte das pessoas buscam se inserir, seja pela demonstração dos ideais de uma vida perfeita ou beleza inalcançável, gerando uma cascata em que mais pessoas se sentem deslocadas, inseguras e ansiosas. Nesse sentido, o influenciador “Felca” gerou grande mobilização social ao postar o vídeo “adultização”, mostrando a maneira que as crianças estão mais suscetíveis a tal conjuntura, dando margem à pedofilia e exploração pelos responsáveis, isso viabilizado pela falta de fiscalização e conscientização. Dessa maneira, a intervenção e discussão tornam-se primordiais.
Ademais, o controle comportamental aprofunda ainda mais o revés supracitado. Nesse prisma, o pensador iluminista Immanuel Kant postula seu senso de “menoridade”, sendo esse o período da vida de um indivíduo, marcado pela insuficiência do pensamento próprio e autocrítico, dependendo sempre de opiniões pré-estabelecidas. Sendo assim, tal comportamento mimético ganha poder em ambientes virtuais, seja através de tendências ou de influenciadores, lançando um véu de ignorância sobre os usuários, que muitas vezes perdem a identidade e reproduzem a moda do momento, além de embasaram as próprias ideias sempre buscando aprovação midiática, constituindo uma grande massa de manobra. Logo, uma ação é válida para solucionar o paradigma.
Urge, portanto, uma atitude governamental. É cabível, então, aos órgãos midiáticos – veículo esse que abrange grande parte da sociedade brasileira –, conscientizar a comunidade ao passo que luta por uma maior fiscalização, punição e contra o mito da “terra sem lei”; isso por meio de campanhas online com o fito de mitigar a inoperância da vigília. Além disso, também é importante que o Ministério da Educação, por meio de palestras e debates periódicos, promova nas escolas o exercício contínuo de atividades pedagógicas que fundamentem o autoconhecimento e criticidade pessoal acerca da realidade circundante e seus desafios. Com efeito, haveria um decréscimo de atividades hediondas em ambiente digital, ao mesmo tempo que ocorre a descentralização do poder, marcado pela criação de pessoas autônomas, tornando a previsão de “1984” incorreta em solo nacional.
Conclusão
Eu poderia concluir sobre diferenças de estilo e composição entre os textos, mas tudo o que consigo concluir neste momento é que o amado sobrinho já deveria estar admitido em qualquer institução a qual esteja se candidatando e forma rápida e inequívoca! Vou deixar qualquer outro tipo de análise a você, que me lê neste momento e tem à sua disposição o espaço de comentários logo abaixo.