Para quem ainda não sabe, desde criança sempre sonhei com uma casa na árvore, mas nunca tive essa oportunidade. Meus pais diziam que era impossível, coisa de desenho animado. Para quem conhece o Parque Amantikir em Campos do Jordão vai ver que não é tão impossível assim! 🙂 Isso sem falar naquela linda lá no Magic Kingdom com vários cômodos separados em galhos diferentes.
O sonho dessa noite começa com minha família vendo um terreno, como se fosse para comprar ou alugar. Como a história começa pelo meio, não sei o que estávamos fazendo ali, mas meu pai olha, diz que não interessa em vamos embora. No ambiente estavam além de mim, meu pai (que já não está entre nós), minha mãe, meus irmãos e a Kelly.
O terreno que fomos ver devia ter uns 15 metros de frente para a rua e uns 60 metros de profundidade. Ao entrar no terreno, havia uma casa bem precária na lateral esquerda e, caminhando para o fundo havia uma árvore, com uma casa na árvore também bem precária. Caminhando mais para o fundo era possível observar que estávamos sobre um deck de madeira e abaixo desse deck passava um rio. O terreno confrontava aos fundos com uma floresta e aos lados com casas humildes. A rua era de terra batida e havia muito gramado nos arredores.
Ao chegar em casa eu falo para a Kelly que aquela casa que meu pai foi ver poderia ser o nosso sonho de casa na árvore. Eu disse que deveríamos voltar lá e comprar a propriedade, que reformando a casa de alvenaria e a casa da árvore poderíamos ter dois ambientes muito confortáveis para habitar. A casa na árvore era única, mas como a árvore era bem grande e robusta, ainda disse que era possível construir outros cômodos nos galhos, fazendo um escritório com parede de vidro na parte mais alta, com vista para a floresta e quartos para o Gabriel e para a Myllena em galhos distintos, e ainda haveria espaço para um quarto de hóspedes. Na parte de trás, no gramado à direita ainda haveria vaga de estacionamento para uns 5 carros.
Ela contestou dizendo que eu sentiria falta da praia, já que gosto de correr todos os dias e andar de bicicleta, mas eu disse que, como a casa ficava no final do Rio Morto, a distância que eu teria que percorrer de carro até a praia ou de bicicleta, compensava, já que ela teria o tão sonhado silêncio que tanto almeja e que não existe aqui no local onde moramos. Para quem não sabe, moramos próximo a praia, em um dos lugares mais bonitos do mundo, porém não há silêncio. Bares ao redor tocam música em alto volume durante 24 horas, e isso a incomoda profundamente, apesar de não me afetar tanto assim.
Com a proposta do silêncio ela concordou, chegando a comentar que teríamos uma casa parecida com a do Pietro Akhenaton, amigo da minha filha que mora em uma casa paradisíaca em meio floresta com decks, riachos e casinhas de boneca em tamanho real espalhados pelo jardim!
Fomos lá olhar novamente a propriedade. Eu mostrei que daria para morar na casa, ainda que precária, com uma reforma muito pequena, bastando uma pintura e a reparação em um buraco na parede que dava acesso à casa do vizinho.
Lembrem-se que se trata de um sonho, então pessoas aparecem magicamente. Sendo assim, meu irmão apareceu magicamente concordando, dizendo que a casa era maravilhosa e que seria sensacional ficar ouvindo o som daquele rio todos os dias passando por baixo da casa.
Nesse momento, crianças aparecem bricando no terreno. São os filhos do morador da casa ao lado, aquela que tem acesso pelo buraco na parede. Eu chamo a moradora e faço a ela algumas perguntas relevantes para avaliação do local como moradia.
Eu queria saber se lá chegava acesso à Internet via fibra óptica, já torcendo para ter cabos da Vivo ou da TIM, e finalmente terminar minha eterna luta contra a falha de IPv6 da Oi, uma batalha que já travo com eles há anos e eles dizem que o problema não existe, que é invenção da minha cabeça, mesmo eu já tendo provado para eles e registrado o fenômeno em vídeo, e a postagem em meu blog explicando como resolver ser uma das mais acessadas, já tendo mais de 11 mil consultas e agradecimentos.
Enquanto eu pensava em acesso à Internet, capacidade de energia elétrica, alagamento do rio em condições de chuva, condição da estrada de terra em situações intempéries, meu irmão resolveu sondar a região para termos uma melhor consciência situacional da propriedade. A luminosidade começou a cair rapidamente e, sem percebermos, já era noite. Chamamos meu irmão para ir embora e ele não respondia, então começamos a andar um pouco pela rua, gritando o apelido dele, e nada.
Pouco após a propriedade, havia uma bifurcação, já estava escuro, e como havia muito gramado e pista de terra, entramos pela bifurcação, caminhamos mais um pouco e comentei com a Kelly para ligar a lanterna no celular, porque não estávamos mais andando na rua e sim dentro da proprieade de alguém. Ela ligou a lanterna, apareceram duas crianças assustadas que gritaram. Os pais logo apareceram. Pedimos desculpa, dissemos que estávamos perdidos e que só queríamos voltar para a rua. Como o terreno dessa casa era muito grande, ela nos encaminhou para a rua do outro lado.
Lá a situação era pior, porque a rua de terra se confundia ainda mais com o gramado, seguimos na direção que parecia ser aquela que voltava para o nosso carro, mas chegamos em um local que estava ainda mais difícil separar o que era rua do que era gramado das casas e praças. Nesse meio tempo, caminhávamos gritando o meu irmão para ver se ele aparecia.
Continuamos andando, o dia clareou e nos vimos em outra bifurcação muito parecida com aquela primeira, porém não havia indício do carro e nem da propriedade que fomos ver. A Kelly andou em outra direção, que pensava ser a certa e, quando me viro, não a vejo mais.
Os celulares estavam sem sinal. Um transeunte me informa que, por haver uma favela bem próximo, os criminosos ativaram inibidores de sinal para que não houvesse comunicação via celular na região. Com essa informação já havia desistido de adquirir a propriedade por alguns motivos:
- Em primeiro lugar pela Internet. Em locais dominados pelo crime organizado, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, as operadoras de telefonia não chegam com seus cabos, obrigando a população contratar o acesso provido pelos criminosos, por aqui, essa prática é chamada de “gatonet”. Da mesma forma, os criminosos não permitem que você instale uma antena da Starlink para obter o acesso via satélite, eles já reconhecem essas antenas e são capazes de reconhecer quem está violando esta regra, e agora com o bloqueio de telefonia celular, o cerco fica fechado. Então a propriedade estaria fora de cogitação para mim, por não ser possível trabalhar em casa.
- A proximidade com o crime organizado. Atualmente, eu jamais viveria conscientemente em local dominado por bandidos. Não acho correto pagarmos muitos impostos, e além dos impostos ainda pagar as taxas exigidas pelos criminosos para quem vive nessas localidades.
- Da mesma forma não gostaria de viver em uma região que vive sob as regras dos criminosos.
Tomada a decisão de desistir da propriedade, comecei a pensar em um plano de ação para encontrar meu irmão e a Kelly. Pensei: “se eles foram capturados pelos criminosos, preciso encontrar uma forma de negociar com o chefe”. Eu acreditava que eles estariam vivos porque o bandido poderia utilizar esta vantagem para cobrar um resgate.
Avistei um bar logo adiante, caminhei em sua direção para obter informações de como acessar o mandante da área mas enquanto caminhava, fui acordado pelo frio. O ar condicionado do meu quarto estava ligado e, por alguma razão a coberta saiu de cima de mim. Me enrolei de novo na coberta e voltei a dormir, para ver se voltava ao sonho, mas dessa vez não houve sucesso. Agora, se quisermos um final para essa história, teremos que inventar um.
O final provável é que o criminoso comandante do local viesse a me matar, uma vez que normalmente a gente acorda do sonho na hora que morre, mas isso é só ficção. Nunca saberemos o final real que foi processado originalmente em meu subconsciente.