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Para Quem Pensa em Visitar o Vulcão Rinjani

Para Quem Pensa em Visitar o Vulcão Rinjani

Esta semana, o Brasil recebeu impactado a notícia da morte da Juliana Marins, que fazia um passeio ao Vulcão Rinjani, na Indonésia. Popular destino turístico daquela região, muitas pessoas não sabem dos riscos daquela subida e do engano das empresas que vendem tal atividade. Por sorte, me deparei com uma postagem da escritora Letícia Mello, que esteve no local, fez a aventura até o topo, e compatilhou sua experiência. Quem me segue, sabe que gosto e pratico aventuras na natureza, e achei o relato da escritora incrivelmente importante para que todos os viajantes e trilheiros fiquem cientes. Acompanhem aí o que ela escreveu:

Eu já subi o Vulcão Rinjani em jun/2017 e, diante da tragédia que aconteceu com a Juliana Marins, acredito que pode ser válido compartilhar a minha experiência para evitar tragédias futuras e também para trazer mais contexto da situação – para não falarem besteira.

Começo afirmando que:

O Monte Rinjani foi a maior furada da minha vida.

Já cruzei os EUA pilotando uma moto 650cc, já subi sozinha o vulcão mais alto da América Central, na Guatemala, subi outros vulcões e montanhas (nenhum técnico – e acho importante diferenciar isso), mochilei pelo Sudeste Asiático e vivi infinitas aventuras! Dentre tudo que já fiz, o Mt. Rinjani foi a única atividade em que me senti em perigo real. Por quê?

1. Tudo Começa na Venda

Ao subida ao vulcão é vendida como um “passeio” que não precisa de nenhum preparo ou equipamento. “É só subir”. Geralmente, quem está mochilando pelo Sudeste Asiático não tem roupas de frio e/ou equipamentos. Para ter ideia, o Philipe subiu de short! O vendedor nos convenceu ao dizer que tanto o bastão quanto a jaqueta estavam incluídos no valor do pacote, que custava US$ 100 por pessoa – um preço bem atrativo para quem está viajando com orçamento apertado há meses. Provavelmente, subimos com a pior empresa possível.

2. No Primeiro Dia, Metade do Grupo Desistiu

Nos entregaram um “corta-vento” todo mofado, que não nos esquentaria, alegando que seria suficiente. Quando questionamos sobre os bastões, o guia entrou no mato e voltou com uns pedaços de galhos longos, que limpou com um facão – achei graça, porque faria o trabalho. As condições eram extremamente precárias, ao ponto de a tenda das meninas que estavam conosco não ter aguentado ficar de pé, e elas dormirem com a tenda completamente caída sobre elas. A nossa tenda ficou em pé com a ajuda do galho/bastão. Assim que amanheceu, metade do grupo desistiu e desceu a montanha. Nós continuamos com um grupo de canadenses que eram os únicos bem preparados, mas com zero espírito de equipe.

3. O Mt. Rinjani Está Muito Longe de Ser Uma Montanha Fácil

O Monte Rinjani não é uma montanha técnica (o que também reflete na capacidade de resgate/equipe), mas está muito longe de ser uma montanha fácil: são cerca de 30 km em 3 dias – de 2.500 a 3.300m de ganho de elevação, dependendo da rota. É exaustivo, e o público é, em sua maioria, formado por backpackers que estão viajando sem preparo físico e sem equipamento, além de um orçamento apertado (nosso caso, na época). A comida era muito básica, a ponto de nem nos alimentar direito. Os guias/porters eram esforçados e extremamente simpáticos, mas muito mal equipados e preparados.

4. Falta de Preparo de Todos os Envolvidos

Acordamos às 2h da manhã no terceiro dia para chegar ao cume e ver o Sol nascer. Mas na noite anterior houve uma tempestade fortíssima e ninguém chegou ao cume. Com o mau tempo e frio pela falta de roupas adequadas, questionei nosso guia se, pela experiência dele, havia condições para subir. A resposta em broken english foi “you go, I go”, querendo dizer que, se eu decidisse subir, ele iria comigo. A função dele era fazer seu trabalho, acompanhando o turista em sua decisão. É complicado estar no topo da montanha e não poder contar com o conhecimento do guia ou com tecnologia para no guiar – pior ainda, mal tínhamos um idioma em comum, já que seu inglês era extremamente básico para a função.

Ainda asim, optamos por seguir, e, faltando cerca de 300m para o topo, meus pés congelados me impediam de continuar e comecei a chorar de frio/desconforto. A montanha estava completamente fechada e eu não via razão para subir, já que não haveria nascer do Sol. O Philipe me convenceu de que seria melhor subirmos com o grupo para nos mantermos em movimento/aquecidos – e foi o que fiz! Tiramos foto no topo a 3.726m de altitude para registrar o perrengue – cangas tinham virado cachecol, blusa foi para a cabeça, saco de dormir virou casaco – tudo isso diante da paisagem totalmente encoberta. Estava feliz por ter dado tudo certo e, como sempre, tirando o melhor da situação e me mantendo animada.

5. Abismo e Terreno Arenoso

Foi somente na descida do cume, com o dia amanhecendo, que tive noção do tamanho do penhasco que existe para ambos os lados. E olha que não me assusto com pouco – fiquei bem perplexa por termos subido no escuro, sem equipamento e com guias que, apesar de permanecerem conosco, não tinham preparo. Nos vídeos da descida, já de dia, dá para ter noção da dificuldade do terreno – na subida, dávamos dois passos para frente e um para trás. Exige bastante esforço! A descida foi feita escorregando mesmo.

6. Se Reclamar, Eles Perdem o Emprego

Quando conversei com nosso guia, dizendo que faria reclamação formal sobre as condições de trabalho e do que a empresa estava oferecendo de forma enganosa, ele implorou para que eu não falasse nada, pois perderia seu emprego e tinha família para cuidar. Ficou com tanto medo que eu optei por não falar nada. No fim, o Philipe lhe deu uma roupa ou tênis, não lembro ao certo.

Tudo isso para dizer que não adianta usar uma lógica linear para entender o que acontece lá no Rinjani. É muito fácil acabar subindo o vulcão totalmente despreparado – o que deve ter acontecido com a Juliana, assim como acontece todos os dias com outros viajantes. Essa não é a primeira fatalidade lá. Essa foi a ÚNICA experiência que vivi pelo mundo da qual saí pensando que “não deveria ser aberta ao público”- principalmente por estar na Indonésia, que é um país conhecido pela exploração do turismo a todo custo.

A minha intenção é só trazer minha experiência e dar contexto – não tenho respostas e nem pesquisei o suficiente sobre o caso da Juliana, qualquer opinião minha seria desnecessária e infundada. Importante dizer que essa foi a minha primeira experiência com montanha/vulcão, então não tinha muita bagagem para entender bem a situação. Precisei ir morar nas montanhas do Colorado e subir alguns vulcões pelo mundo, para ganhar conhecimento e me sentir mais segura para fazer uma melhor leitura dos cenários. E compartilho isso para que mais pessoas saibam que o acidente no Rinjani não é montanhismo de verdade e nem deveria ser comercializado da maneira que é – evitando tragédias e perdas futuras. Descanse em paz, Juliana.

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